Síndrome de Ekbom acompanhada de automutilação

RESUMO
O
delírio parasitário (ou síndrome de Ekbom) é uma condição rara, onde
o paciente apresenta uma forte convicção de que está infestado por
pequenos parasitas ou organismos. Muitas vezes, os delírios são tão
intensos que levam esses pacientes à automutilação. Relatamos aqui
um caso de um senhor de 67 anos, isolado socialmente, solteiro,
apresentando delírio parasitário em região perineal, culminando em
lesões por automutilação.
Descritores: Transtornos paranóides, delusões, automutilação, síndrome de Ekbom.


Introdução

A
síndrome de Ekbom – delírio de infestação parasitária, neurodermia
parasitofóbica, acarofobia ou, como o próprio Ekbom chamou, dermatozoenwahn (delírio dermatozóico) – vem sendo relatada e estudada desde o século XIX. Porém, foi em 1938 que esse médico austríaco relatou uma série de casos
de uma doença psiquiátrica, acometendo principalmente mulheres na
idade senil ou pré–senil. Os pacientes apresentavam uma idéia
delirante e persistente de que vermes e micróbios os infestavam e
saíam pela pele. Esse delírio leva os pacientes a
assumirem uma atitude automutilante, coçando, cortando e lesionando a
pele, visando eliminar tais parasitas. Essas lesões são comumente denominadas dermatitis artefacta.
Outros autores consideram o fenômeno como sendo um medo de que
insetos infestem seus corpos, enquadrando essa síndrome como psicose
hipocondríaca monossintomática. Dessa forma, a gama de sintomas envolvidos nessa patologia pode variar de sintomas psicóticos
e delírios a sintomas fóbicos e obsessivos; 42% dos pacientes ainda
podem exibir graus variáveis de desordens orgânicas, como neurite
periférica, diabetes melito, demência, entre outras. O abuso de substâncias também pode gerar alucinações relacionadas a insetos, como o fenômeno dos cocaine bugs, relacionado ao uso de cocaína.

Alguns pacientes chegam a coletar debris,
tecido descamativo, cabelo, crostas e outras substâncias que se
aderem às lesões (poeira, restos vegetais, partes de insetos,
detritos do vestuário, etc.) e os levam em caixas e sacos plásticos
ao médico, afirmando que os parasitas estão ali e, geralmente,
pedindo que tal material seja analisado laboratorialmente. Isso é
conhecido como o “sinal da caixa de fósforos”.

Toma
parte dos delírios a capacidade dos pacientes de ver os parasitas,
descrevê–los em minúcias e até desenhá–los, com as mais variadas
formas e tamanhos. As imagens mais comuns são de minúsculos
artrópodes com patas e cabeça e vermes cilíndricos esbranquiçados de
comprimento variável.

Quando
esses pacientes não vivem sozinhos, muitas vezes são capazes de
gerar transtorno psicótico induzido em vizinhos e familiares (folie à deux, folie à famille), correspondendo a cerca de 5 a 25% dos casos, dependendo da literatura. Sabe–se também que mulheres são mais capazes de induzir o transtorno que homens.
O
protótipo do paciente com delírio parasitário é uma senhora, com
idade média de 58 anos, isolada socialmente, divorciada ou viúva e
com baixa escolaridade, o que torna essas características fatores de
risco para o desenvolvimento da doença.

Lesão de um paciente com síndrome de Ekbom

Descrição do caso
O
paciente deste caso é do sexo masculino, branco, 67 anos,
trabalhador rural aposentado, solteiro, sem filhos. O paciente
concordou e autorizou a publicação do caso e das imagens.
Refere
que, há aproximadamente 25 anos, iniciou com prurido e automutilação
em região de bolsa escrotal, que foi aumentando em extensão,
atingindo demais áreas de períneo e região perianal.

Conta
que o prurido e a automutilação, que realiza através de incisões na
pele com lâminas de barbear, têm o objetivo de retirar e matar os
parasitas. O paciente descreve os parasitas como sendo pequenos
vermes cilíndricos de diâmetro muito reduzido, avermelhados
externamente e brancos internamente, variando de 5 a 20 cm de
comprimento, com uma pequena cabeça na extremidade. Quando solicitado,
faz esboços em papel, como o apresentado na Figura 1.

Relata que tais vermes causam uma
“infecção no seu organismo” e que esta “prejudica principalmente o
fígado”. Diz que, para eliminá–los, deve retirá–los da região
perianal com gilete, estendê–los e pô–los a secar ao sol, momento em
que eles derretem e morrem. Conta que essa é a única forma de
matá–los e que nenhum outro remédio que os médicos já tentaram usar
foi capaz de extingui–los.

O
paciente não apresenta humor deprimido nem sintomas fóbico–ansiosos.
Tem pensamento organizado e coerente, com discurso levemente
acelerado. Apesar das delusões referentes ao delírio parasitário,
nunca apresentou outros sintomas psicóticos. Nega abuso de
substância. Não apresenta déficit de memória, está orientado em
tempo, espaço e autopsiquicamente, alcançando 29 pontos em 30 no
Mini–Exame do Estado Mental de Folstein (Mini–Mental). Não apresenta insight em relação à sua condição, apesar de apresentar adequação ao teste de realidade.
Vive na zona rural, isolado, com poucos recursos, sem nenhuma ajuda dos parentes próximos.
O
início da doença ocorreu aos 43 anos, quando foi internado em um
hospital clínico devido às lesões de automutilação e, posteriormente,
transferido para um hospital psiquiátrico pelo quadro delirante.
Antes disso, o paciente apresentava funcionamento psíquico sem
alterações significativas. Nega história familiar de doença psiquiátrica.
Desde que começou a ser atendido pela equipe do posto de saúde, em
meados de fevereiro de 2005, já apresentava certo grau de anemia
ferropriva, pela constante perda sangüínea desencadeada pelas lesões
de automutilação. Por várias vezes apresentou sintomas orgânicos,
como cansaço, fadiga, dores musculares e dispnéia aos esforços,
quando, invariavelmente, acabava internado em hospital clínico para
realizar transfusão sangüínea. Em março de 2005, foi realizada visita
domiciliar, encontrando paciente com xerostomia, descorado,
dispnéico, taquicárdico, apresentando lesões em região perianal com
secreção serossanguinolenta, quando foi feita a hipótese diagnóstica
de transtorno delirante do tipo somático.

Além
da anemia ferropriva pela perda sangüínea e da infecção de pele no
local das automutilações, o paciente não apresenta nenhuma outra
patologia orgânica. Foi avaliado por clínicos e dermatologistas
enquanto esteve internado em hospital terciário de referência, para
tratamento da anemia e das lesões.

O
paciente, inicialmente, foi submetido a farmacoterapia com pimozida 4
mg/dia e prometazina 50 mg/dia, sendo orientado aos familiares que o
paciente deveria ser acompanhado por um cuidador constantemente.
Evoluiu com boa resposta e boa adesão ao tratamento, enquanto seu
cuidador permaneceu em sua casa. Não ficou em nenhum momento
assintomático em relação aos sintomas delirantes, porém se
automutilava menos. Após desentendimentos com seus familiares, perdeu
a adesão ao tratamento, piorando o quadro delirante e voltando a
apresentar automutilação.

Discussão

O
presente caso revela um paciente com síndrome de Ekbom que, com
exceção do sexo, aproxima–se muito do padrão encontrado na literatura
de uma pessoa entre a quinta e a sexta década de vida, isolada
social e geograficamente, solteira, divorciada ou viúva, com baixa
escolaridade. A sintomatologia, com algumas peculiaridades de cada
caso, também tem pouca variação. A automutilação encontrada no presente paciente também foi relatada em alguns outros casos, porém com uma intensidade menor.

Esses
pacientes, quando não acompanhados de outras patologias, geralmente
alcançam altos escores no Mini–Mental, mesmo no caso de idosos.
Da mesma forma, o paciente em questão obteve um bom escore,
excluindo um possível quadro demencial. A ausência de sintomas
psicóticos produtivos e o funcionamento adequado do paciente, mesmo
sem tratamento, afastam a hipótese de esquizofrenia.

O paciente foi encaminhado ao Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Santa Maria
durante uma de suas internações, onde outras patologias puramente
dermatológicas foram excluídas. Os exames laboratoriais, àquela
época, foram inespecíficos. Além da anemia hipocrômica microcítica
que desenvolveu após o início da automutilação, nenhuma outra
patologia orgânica ficou evidenciada.

Em relação ao tratamento, o paciente respondeu bem, inicialmente, à pimozida, o que é congruente com a literatura.
Entretanto, como também pudemos concluir com nosso caso, a pobre
adesão é o fator que mais leva a um tratamento de poucos resultados.

Fonte: SciELO

By | 2017-11-10T12:04:26+00:00 abril 15th, 2014|Categories: Sem categoria, Síndromes|Tags: |0 Comentários

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