[Vídeo] – Entenda como funciona o Diabetes.

Diabetes é uma doença do metabolismo causada pela falta de
insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas,
glândula que se localiza logo abaixo do estômago, entre esse órgão e o duodeno.
Na verdade, não se trata de uma doença única, mas de um conjunto de
doenças com uma característica em comum: o aumento da concentração de glicose
no sangue provocado por duas diferentes situações. Primeira: o pâncreas produz
pouca ou nenhuma insulina. Segunda: as células são resistentes à ação desse
hormônio cuja função é quebrar as moléculas de glicose absorvida através da
digestão para que as células possam assimilá-las e produzir energia.
A ausência total ou parcial de insulina interfere na queima do açúcar e
na sua transformação em outras substâncias como proteínas, músculos, gorduras,
etc.
Maior concentração de glicose no sangue provoca um fenômeno inflamatório
nas pequenas artérias que degenera, especialmente, suas terminações. Como
consequência, diversos órgãos são atingidos, entre eles o coração (maior número
de ataques cardíacos), os rins (insuficiência renal), as pequenas artérias da
retina (alterações na visão), do pênis (impotência sexual) e do cérebro
(derrames cerebrais). Nos membros inferiores, especialmente nos pés, podem
surgir feridas que demoram a cicatrizar. Além de acometer as artérias, o
aumento de glicose no sangue pode, ainda, alterar terminações nervosas fazendo
surgir as neuropatias diabéticas.
Existem dois tipos principais de diabetes: o tipo I, que geralmente aparece na infância ou
adolescência, e o tipo II que se manifesta, na maioria dos casos, em
pessoas acima dos 40 anos.
Atualmente, estamos vivendo uma epidemia de diabetes com aumento
expressivo da incidência do tipo II em crianças, o que era raro no passado.
DIABETES TIPO I E TIPO II
Qual a diferença entre diabetes tipo I e tipo II?
Marcello Bronstein – Numa definição
superficial, diabetes é uma doença do metabolismo causada pela falta de
insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas, fundamental para a queima do
açúcar e para a sua transformação em outras substâncias, como gorduras,
músculos, proteínas, etc.
Sempre comparo o pâncreas do paciente com diabetes tipo II a um burro velho que
ainda consegue trabalhar e é obrigado a subir uma rampa. Num determinado
momento, porém, ele empaca e não há quem consiga arrastá-lo dali. No entanto,
se diminuirmos a inclinação da rampa, ele voltará a andar. Assim acontece com o
pâncreas comprometido pela doença. Funciona como se tivesse pedido concordata.
Produz insulina, mas não o suficiente para cobrir as necessidades orgânicas.
Todavia, se o paciente emagrecer ou deixar de usar cortisona, por exemplo, o
pâncreas pode voltar a produzir esse hormônio em níveis adequados. Dessa forma,
é fácil entender ser falsa a ideia de que, se o indivíduo tomou insulina por
algum tempo, será obrigado a tomá-la para sempre. Isso só acontecerá se o
pâncreas tiver deixado de funcionar definitivamente.

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FALÊNCIA DO PÂNCREAS
Como você explica o aparecimento de diabetes tipo I em crianças?
Marcello Bronstein – O diabetes
tipo I, muito mais frequente em crianças, decorre de uma falência total do
pâncreas, que deixa de produzir insulina. Esse tipo de diabetes exige doses
suplementares de insulina pelo resto da vida para que a pessoa possa levar vida
saudável.
Atualmente, admite-se que a destruição do pâncreas resulta de uma inflamação
autoimune. É como se o organismo não reconhecesse mais esse órgão e passasse a
atacá-lo como a um corpo estranho. Parece que isso tem implicação com algumas
viroses. No entanto, não basta contrair a virose. É preciso haver uma
predisposição genética do indivíduo, pois só a interação dessa tendência com o
vírus leva à destruição do pâncreas.
FAIXA ETÁRIA DE RISCO
Até que idade esse tipo de diabetes costuma desenvolver-se?
Marcello Bronstein – Em geral, o
tipo I pode ocorrer desde o nascimento (há casos de crianças muito pequenas)
até cerca dos 20 anos de idade. O tipo II, ou seja, o tipo de diabetes que
usualmente não precisa de insulina, porque o problema não é a falta desse
hormônio, mas sua deficiência parcial ou a resistência à sua ação, costuma
acometer pessoas com mais de 40 anos.
Como se explica, então, a maior incidência de diabetes tipo II em
crianças?
Marcello Bronstein – No momento,
verifica-se um fenômeno muito sério. Ao contrário do que acontecia antes,
crianças e adolescentes, sem distinção de classe social, passaram a apresentar
diabetes do tipo II, isto é, o que não necessita de insulina. Apenas 10% de
todos os casos nessa faixa etária correspondem ao tipo I.
A explicação para o crescimento do diabetes tipo II nessa faixa de idade está,
sem dúvida, na obesidade, principalmente na obesidade abdominal, ambas a causa
mais importante da resistência à ação da insulina. Quando se fala em obesidade
abdominal, referimo-nos não só à gordura localizada no tecido subcutâneo
(debaixo da pele), responsável pela barriga saliente, mas principalmente à
gordura que envolve as vísceras, a chamada gordura visceral.
 GORDURA APARENTE E GORDURA VISCERAL
Existe correlação entre a gordura visceral e a subcutânea?
Marcello Bronstein – Em geral,
existe correlação entre a gordura visceral e a subcutânea, tanto que medindo o
diâmetro da cintura pode-se indiretamente inferir qual o índice aproximado de
gordura visceral. É óbvio que para ter uma noção exata seria necessário recorrer
a exames mais específicos, por exemplo, a tomografia computadorizada.
Como se calcula essa relação?
Marcello Bronstein – Divide-se o
número obtido medindo a circunferência da cintura pelo que se obteve medindo o
quadril e estabelece-se uma relação. O fato, porém, é que quanto maior a
cintura, mais gordura localizada no centro do abdômen, maior a relação
cintura/quadril e maior a probabilidade de existir gordura internamente. É
importante destacar, ainda, que a obesidade visceral predispõe ao diabetes, à
elevação do colesterol, do triglicérides e da pressão arterial.
ÍNDICE DE MASSA CORPÓREA (IMC)
Os endocrinologistas usam o IMC para calcular a o grau da
obesidade. Vamos lembrar como ele é calculado?
Marcello Bronstein – O Índice de
Massa Corpórea é uma equação muito simples: divide-se o peso do indivíduo por
sua altura ao quadrado. Se o número obtido for menor do que18,5 a pessoa estará
abaixo do peso saudável, já que se considera normal o resultado entre 18,5 e
24,9. Quando o índice se situa entre 25,0 e 29,9 as pessoas estão com
sobrepeso, gordinhas. Acima disso, a classificação varia: entre 30,0 e 34,9
refere-se aos obesos leves; de35,0 a 39,9, aos obesos moderados e acima de 40,0
indica um grau de obesidade que, não faz muito tempo, era chamada de obesidade
mórbida. Depois, esse nome foi substituído por obesidade grau três, para
torná-lo politicamente correto. Não importa se mórbida ou grau três, a
obesidade constitui um problema sério de saúde.
OBESIDADE: PRINCIPAL FATOR DE RISCO
É preciso ser exageradamente obeso para desenvolver diabetes tipo
II?
Marcello Bronstein – Não. Basta
existir sobrepeso. No diabetes tipo II, não há uma deficiência absoluta na
secreção de insulina. Apesar de parecer paradoxal, o indivíduo diabético tipo
II obeso aparentemente pode ter mais insulina do que o magro não diabético.
Esse hormônio, que atua em várias células do corpo, não consegue ultrapassar a
resistência oferecida pelo excesso de tecido adiposo, especialmente pela
gordura localizada na barriga, a famosa obesidade do chope e da cerveja. Isso
quer dizer que, no diabetes do tipo II, ocorrem dois problemas importantes: um
é a resistência à insulina e o outro é a falta da liberação adequada na hora em
que ela é necessária.
Como devem ser avaliados os níveis de glicemia?
Marcello Bronstein – Num
indivíduo normal, há uma insulina de base que se mantém constante durante a
noite porque, mesmo em jejum, o fígado transforma gorduras e proteínas em
açúcar e uma insulina em picos que depende principalmente da ingestão de
alimentos.
No diabético tipo II, porém, pode ocorrer um fenômeno diferente. A glicemia de
jejum, medida após período prolongado sem alimentação, apresenta valores
elevados em virtude da resistência à insulina e a glicemia pós-prandial, isto
é, aquela medida duas horas depois da refeição, também pode estar alta, porque
sua produção não respondeu ao estímulo alimentar. Estabelecer essas medições é
importante para o diagnóstico e tratamento. A glicemia de jejum funciona como
uma fotografia cristalizada de uma situação, mas é importante assistir ao filme
todo para estabelecer uma avaliação mais precisa. Para tanto, existe um exame
específico: a curva glicêmica que revela as reais condições de funcionamento do
pâncreas.
Diabetes em homens e mulheres magros é proporcionalmente mais
raro?
Marcello Bronstein – É raro, a
não ser que haja uma carga genética muito importante ou seja um caso de
diabetes do tipo I.
OBESIDADE INFANTIL
O Índice de Massa Corpórea está aumentando nas crianças?
Marcello Bronstein – Esse índice
está aumentando nas crianças. Os números de referência são um pouco menores,
mas não existe uma padronização absoluta. De qualquer forma, um IMC igual a 24
já é alto demais na infância.
A que você atribui esse aumento de massa corpórea nas crianças?
Marcello Bronstein – Sem dúvida
nenhuma, esse aumento resulta dos maus hábitos alimentares e do sedentarismo. É
a síndrome da comida junk-food. A criança
moderna alimenta-se basicamente com sanduíches, excesso de carboidratos e de
gorduras e não se exercita. Fica diante da televisão por horas, usando o
controle remoto e comendo sem prestar atenção no que come tão entretida está
com a programação.
Esse fenômeno universal é mais evidente nos Estados Unidos, onde o problema da
obesidade, inclusive a infanto-juvenil, é grave. Lá o porcentual de obesos
mórbidos ou de terceiro grau está se transformando num caso de saúde pública.
No Brasil, ele começa a manifestar-se e a causar preocupação.

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Qual o papel dos pais na prevenção do diabetes?
Marcello Bronstein – Pais,
educadores, todos podem e devem ter papel ativo na prevenção do diabetes tipo
II, já que a maior incidência dessa doença em crianças e adolescentes advém,
sem dúvida, do aumento dos casos de obesidade nessa faixa de idade.
HEREDITARIEDADE
rauzio – O diabetes é uma doença hereditária?
Marcello Bronstein – O
componente hereditário no diabetes tipo I e no tipo II difere bastante. A força
da hereditariedade é mais flagrante no diabético tipo II. Sempre existe um
parente bem próximo ou, às vezes, mais distante que apresentou a doença. Há
alguns subtipos ou subgrupos típicos do tipo II em que o fator hereditário é
matemático, um traço dominante. Basta que um dos pais tenha diabetes, para que
a doença se manifeste em todos os filhos independentemente da idade que tenham.
No tipo I, a situação é outra. Sabemos, hoje, que se trata de uma doença
autoimune, isto é, em que de repente o organismo age como se o pâncreas fosse
um corpo estranho e passa a destruí-lo. Em muitos casos, uma infecção por vírus
pode desencadear o processo, que só ocorre quando há interação do agente
externo com algumas características do sistema imunológico do indivíduo. Essa
agressão autoimune provoca a deposição de linfócitos no pâncreas que, aos
poucos, perde sua função e deixa de fabricar insulina. Nesse caso, a
hereditariedade entra como um fator indireto e bastante complexo do diabetes.
Qual o peso da genética na instalação do diabetes tipo II nos
adultos?
Marcello Bronstein – Diabetes é
uma doença multifatorial ou poligênica. Dessa forma, entre outras causas,
existem diversos genes implicados no seu aparecimento. Como já dissemos, no do
tipo II, história familiar de diabetes em apenas um dos lados da família é o
suficiente para transmiti-lo para toda a prole. É o que se chama de herança
dominante. Este caso extremo ou MODY – Maturity Onset Diabetis in the
Young
 – justifica o aparecimento do tipo II em crianças, mesmo
antes de surgir a atual epidemia.
Há, porém, outras formas menos claras de herança genética em que a doença não
se manifesta em todos os membros da família.
Pode aparecer um caso de diabetes numa família que não tinha a
história da doença?
Marcello Bronstein – É possível
por duas razões distintas: porque realmente se trata do primeiro caso naquela
família, ou porque a doença existia, mas não foi diagnosticada. O censo do
diabetes realizado no Brasil demonstrou que 7% da população do País têm
diabetes e que 50% deles desconhecem o fato.
Quer dizer que dos 12 a 13 milhões de diabéticos existentes no
Brasil, entre 6 e 7 milhões não sabem que são portadores da doença? São
diabéticos, têm açúcar aumentado no sangue, mas se consideram normais porque
não apresentam sintomas?
Marcello Bronstein – Provavelmente
não apresentam sintomas, porque há várias gradações de diabetes. Pode ser
brando, intermediário ou muito grave. Essas gradações não dependem
exclusivamente do tipo de diabetes adquirido, mas do momento de vida que a
pessoa atravessa. Por exemplo: uma pessoa com uma forma branda da doença,
resolveu fazer uma viagem, comeu muito mais do que estava acostumada e engordou
vários quilos. Essa mudança brusca de hábitos pode provocar o aparecimento da
forma grave da doença e a pessoa entra em coma diabético. Isso não significa
que, voltando à rotina, a doença não possa regredir.
PRINCIPAIS SINTOMAS
Quais os principais sintomas do diabetes?
Marcello Bronstein – Quando o
açúcar sobe no sangue e falta insulina, ele passa para a urina. A pessoa normal
não tem açúcar na urina porque isso só acontece se a concentração na corrente
sanguínea estiver acima de 180mg/dl, número bastante alto e indicativo de que o
diabetes está instalado. Mais baixo do que isso, a glicose entra no rim e volta
para o organismo. Então, quem não tem diabetes, se medir a glicose na urina, o
resultado deve ser negativo.
Quando os rins não conseguem reabsorver o açúcar, porque seu nível está muito
alto no sangue, ele é eliminado pela urina, que aumenta de volume. Como dizia
um professor da faculdade, já que ninguém pode urinar melado, o organismo
absorve mais água para diluir o açúcar. É o mecanismo da diurese osmótica. Por
isso, os principais sintomas do diabetes são a poliúria e a polidpsia, isto é,
a pessoa urina demais e, como isso a desidrata, sente uma sede terrível e bebe
bastante água. Portanto, urinar muito e beber muita água são manifestações
importantes do quadro agudo da doença. Se em vez de tomar água, ela preferir
sucos e cervejas, por exemplo, estará pondo lenha na fogueira. A glicose
atingirá níveis altíssimos e a pessoa poderá entrar em coma.
Apesar da elevação do açúcar na circulação, o diabético descompensado emagrece,
pois a incapacidade de a insulina sintetizar gorduras e músculos reverte-se em
perda desses componentes. Ao ser eliminada, essa gordura cinde-se em pequenas
moléculas que reagem formando os corpos cetônicos, substâncias que espalham
acidez peloorganismo e provocam a cetoacidose diabética, talvez a complicação
aguda mais séria da doença.
 SINTOMAS NA INFÂNCIA
Quais os principais sintomas do diabetes na criança? Os pais devem
estar atentos a que manifestações? 
Marcello Bronstein – De modo
geral, na forma branda, pode não existir sintoma nenhum e essa é a razão de
muita gente não saber que é portadora da enfermidade.
A criança, normalmente, apresenta diabetes tipo I, uma forma grave da doença
com ausência total ou quase total de insulina. Por causa disso, de uma hora
para outra, ela passa a urinar muito, a beber muita água, sente-se mal, tem
turvação visual e emagrece rapidamente. Percebendo tais sintomas, os pais devem
encaminhá-la a um médico sem demora.
O tipo II é uma doença mais insidiosa, mais lenta e é comum a pessoa demorar a
perceber que está urinando ou bebendo água demais. Por isso, qualquer alteração
na frequência das micções ou no aumento da sede deve servir de alerta, pois a
doença pode ter-se instalado.
ÁLCOOL E DIABETES
Qual o peso do álcool no aparecimento do diabetes?
Marcello Bronstein – O álcool
fornece mais calorias que a própria glicose. Cada grama de glicose fornece
4kcal e o grama de álcool, 7kcal. Consequentemente, ele representa um
combustível importante para o aumento de peso. Ora, a relação entre aumento de
peso e diabetes é indiscutível. Basta lembrar que 80% dos diabéticos têm
sobrepeso ou obesidade.
Além disso, o álcool tem outro fator deletério a considerar. Quantidades
maiores de álcool podem provocar inflamação aguda do pâncreas, isto é, uma
pancreatite alcoólica, que resulta na destruição dessa glândula e em diabetes
secundário, desencadeado não por herança genética, mas pela destruição tóxica a
que o pâncreas foi exposto
DOCE TENTAÇÃO
Como os pais devem orientar os filhos desde pequenos para fugir da
tentação que representa o açúcar na vida das crianças?
Marcello Bronstein – O açúcar é
uma tentação na vida das crianças e de muitos adultos também. Os pais precisam
usar de bom senso. De nada adianta serem repressivos ao extremo, porque a
criança vive numa sociedade em que o consumo de açúcar é liberado. Dá para
imaginar uma festinha infantil sem doces nem refrigerantes?
O importante, então, é ensiná-las, como rotina, que a alimentação deve ser
balanceada, fazendo-a entender que açúcar é um complemento, quase um prêmio a
ser dado depois de uma refeição saudável. Se comerem carnes, verduras e frutas,
poderão saborear um chocolate depois. Proibir totalmente pode instigá-las a
contrariar as ordens ou a comer muito mais do que deveriam quando tiverem
oportunidade.
A criança deve habituar-se também a preferir água ou sucos a refrigerantes que
não têm valor nutritivo e aumentam a sobrecarga de açúcar no organismo.
No caso de a família reparar que a criança está enfraquecendo,
urinando muito e bebendo muita água, o que deve fazer?
Marcello Bronstein – A primeira
triagem pode ser feita em casa mesmo. O mais simples é comprar na farmácia uma
fitinha que mede o nível de açúcar, molhá-la na urina da criança e compará-la
com o padrão estampado na caixinha do produto. Se o resultado for positivo, os
pais devem procurar imediatamente o pediatra que os encaminhará a um
endocrinologista. Mesmo que o resultado seja negativo, se a criança estiver
urinando muito e bebendo muita água, é preciso procurar logo um médico que
orientará o diagnóstico. Há uma doença rara, o diabetes insipidus, que demanda
tratamento absolutamente específico. Trata-se de um problema da região da
hipófise que, apesar do nome, nada tem a ver com a forma clássica da doença.
Que futuro aguarda essas crianças que desenvolveram diabetes tão
precocemente?
Marcello Bronstein – Eu diria
que atualmente essas crianças têm um futuro bastante promissor. Até 1920, no
entanto, crianças diabéticas não teriam sobrevida prolongada porque sem
insulina não se vive. Em geral, eram subnutridas, pois comiam pouquíssimo e
nada se podia fazer além de indicar-lhes dieta com restrição de açúcar e
reposição de líquidos o que pouco resolvia porque era como tentar encher um
tanque com o ralo aberto. Essas crianças são dependentes de insulina, hormônio
que só foi sintetizado por volta de 1924/1925, por dois canadenses, Breitner e
Best.
Descoberta a insulina, essas crianças insulino-dependentes puderam ser salvas,
mas com qualidade de vida prejudicada, uma vez que a insulina tinha ação
demasiado rápida e precisava ser aplicada várias vezes ao dia. Tempos depois,
desenvolveram-se drogas com ação mais prolongada que podiam ser combinadas com
as de ação mais rápida para compensar a elevação do açúcar nas refeições.
Apesar de todos esses avanços, o controle do diabetes não era perfeito e
apareciam as complicações que já foram enumeradas.
O que acontece hoje? Em primeiro lugar, existe uma insulina de ação muito lenta
que pode ser ministrada numa única dose à noite ou eventualmente em duas doses
diárias. Existem, também, insulinas de ação rápida que atuam imediatamente e
cobrem o período alimentar e está sendo desenvolvida uma insulina inalável que,
absorvida pelos alvéolos pulmonares, facilitará a vida de crianças e adultos
diabéticos dependentes desse hormônio. Acredita-se que seu uso possibilitará
reduzir ao mínimo as doses injetáveis, substituindo-as por várias inalações
diárias. Embora ainda não esteja disponível no mercado, a insulina inalável
está em fase de franca experimentação.
Infelizmente, ainda não se conseguiu desenvolver uma insulina que pudesse ser
ministrada por via oral. Por ser uma proteína, ela é degradada pelos sucos
digestivos e perde a eficácia.
Resta o recurso dos transplantes de pâncreas. Normalmente, ele é indicado para
os diabéticos que desenvolveram insuficiência renal e precisam ter
simultaneamente rins e pâncreas transplantados. Há uma casuística bastante
animadora de transplante conjunto de pâncreas e rins no Hospital das Clínicas e
na Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Outra possibilidade de tratamento bastante promissora está em estudo: o
transplante de ilhotas de Langerhans, nome do pesquisador que as descreveu.
O pâncreas é um órgão de múltiplas funções. A produção de insulina é
apenas uma delas e se realiza em células localizadas nessas ilhotas que seriam
retiradas do pâncreas e injetadas numa veia que as conduziria diretamente ao
fígado, glândula que passaria a desempenhar as funções do pâncreas.
Você acha que há a possibilidade de tratamento em massa por esses
métodos mais complicados?
Marcello Bronstein – Acho que
não, nem haveria necessidade, pois a grande maioria dos diabéticos pertence ao
tipo II e não precisa tomar insulina. Eles precisam seguir uma dieta alimentar
e praticar exercícios.
DIETA PARA DIABÉTICOS
Como deve ser a dieta para diabéticos?
Marcello Bronstein – Quando se
fala em dieta para diabéticos, pensa-se imediatamente numa dieta drástica, de
fome. Não é verdade. O diabético tipo I, que estiver magro demais, precisa
ingerir calorias suplementares. Por outro lado, as dietas extremamente
restritivas em açúcar que se prescreviam antigamente não têm mais lugar hoje.
Por exemplo, carboidratos complexos como o amido da batata, do arroz e do
feijão são bem-vindos. A única restrição que permanece é para a oferta de
glicose e de sacarose, açúcares rapidamente absorvidos pelo organismo.
O diabético tipo II, como qualquer outra pessoa com sobrepeso, deve emagrecer.
Portanto, sua dieta é igual à indicada para o não diabético, pois ambos devem
evitar não só açúcares, como a glicose e a sacarose, mas também gorduras, as maiores
responsáveis pelo aumento de peso e por alterações no colesterol e
triglicérides. É importante, ainda, distribuir a alimentação por várias
refeições diárias para minimizar os picos de glicemia e otimizar a produção de
insulina. As crianças, de modo geral, devem aprender a alimentar-se seguindo
esses princípios básicos de nutrição.
Como convencer uma criança com diabetes tipo I a ir a uma festa e
não comer brigadeiros nem tomar refrigerantes?
Marcello Bronstein – As crianças
diabéticas não devem ser privadas desses pequenos prazeres, nem tratadas como
exceção. Os pais podem aprender como lidar com a insulina e a adequar as doses
para os dias de dieta excepcional.
ATIVIDADE FÍSICA
Qual a importância da atividade física para os diabéticos?
Marcello Bronstein – A atividade
física é de vital importância para os diabéticos. Primeiro, porque acelera o
metabolismo o que ajuda a queimar calorias e a controlar o peso. Depois, porque
o exercício físico proporciona bem-estar e, por fim, porque é benéfico para o
organismo como um todo: ativa a função cardíaca, melhora a pressão arterial,
etc. Em terceiro lugar, porque há um componente apaziguador de tensões nos
exercícios. É importante ressaltar, porém, que o diabético só deve aplicar-se a
um programa de exercícios, se a doença estiver controlada. Se estiver
descompensada, a atividade física pode ter efeito contrário ao que se deseja,
pois o fígado vai produzir mais açúcar.
Em se tratando de crianças, essa advertência implica um controle
mais rígido, porque a criança desrespeita mais facilmente os limites? 
Marcello Bronstein – É preciso
estar atento para evitar o risco da hipoglicemia, isto é, a queda do açúcar.
Hoje, sabemos que quanto mais rígido o controle do diabetes, maior a prevenção
de suas complicações. Por outro lado, quanto maior o controle, maior a
possibilidade de baixar demais a glicose e a hipoglicemia pode ter
consequências graves. A criança, ou mesmo o adulto, que apresente uma queda
brusca de açúcar, pode perder a consciência.
Por isso, todo diabético, principalmente o do tipo I, precisa determinar
diariamente a dosagem de açúcar no sangue. Por meio da glicemia digital, ele
terá uma ideia da adequação do tratamento e, orientado por seu médico, poderá
fazer correções para aumentar ou diminuir a insulina ou mudar de alimentação.
É óbvio que furar a ponta do dedo, principalmente para uma criança, não deixa
de ser traumático. No entanto, as agulhinhas usadas estão cada vez mais finas e
a aplicação menos dolorosa. Nos Estados Unidos, foi desenvolvido recentemente
um aparelho que, em vez de medir a glicemia na gotinha de sangue extraída da
ponta do dedo, usa o braço ou o antebraço para medi-la e é indolor. Isso para
não mencionar os leitores de açúcar através da pele que utilizam infravermelho
e, sem lesão alguma, permitem ler o nível de glicose no sangue.
Esses avanços vão facilitar o controle da taxa de glicose, mantendo-a
praticamente normal na circulação o que ajudará a evitar problemas futuros.
Crianças e adolescentes diabéticos que seguem à risca o tratamento
têm condições de levar uma vida normal?
Marcello Bronstein – Têm
condições de levar uma vida absolutamente normal. Basta que se conscientizem de
que, além de escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupas, sua rotina
diária inclui medir a glicemia e tomar insulina na dosagem adequada. Muitos
fazem esporte e aprendem a manipular a dose em função das atividades previstas
para aquele dia. Por outro lado, mesmo diante de imprevistos, a existência de
insulinas de ação ultrarrápida permite que a dosagem seja calculada de acordo
com a necessidade de cada ocasião
Haverá possibilidade de crianças diabéticas desde pequenas levarem
vida normal, sem as complicações que a doença costuma acarretar?
Marcello Bronstein – As
investigações efetuadas nos Estados Unidos e que terminaram em 1993, deixam
claro que quanto mais rígido o controle do diabetes, menor a possibilidade de
complicações. É consenso internacional de que pacientes com controle rigoroso
sobre a doença terão menos complicações e apresentarão qualidade de vida e
longevidade igual ou superior às da população em geral.
Como reagem essas crianças e adolescentes quando são informados
que têm diabetes?
Marcello Bronstein – Quando o
diagnóstico é feito, a fase inicial pode ser muito difícil, especialmente para
os pais, porque mexe com a estrutura e a dinâmica familiar. De repente, é
preciso repensar atividades, alimentação e horários de toda a família para
adequá-los à rotina dos medicamentos indispensáveis para o controle da doença.
Nessa fase, o endocrinologista deve desdobrar-se para atender as necessidades
dos pacientes e da família.
CONTROLE DA DOENÇA
Como evitar as complicações do diabetes?
Marcello Bronstein – Sabemos,
hoje, que as complicações do diabetes se manifestam nos pequenos
(microangiopatia) e nos grandes vasos sanguíneos (macroangiopatia). Um estudo
realizado nos Estados Unidos, em 1993, comparou dois grupos de diabéticos
insulinodependentes: um submeteu-se a um tratamento rigoroso e o outro, a
tratamento mais frouxo para controlar a glicose no sangue, aproximando seu
nível, o mais possível, ao de um indivíduo saudável. Esse estudo demonstrou que
as complicações decorrem de modificações estruturais causadas pela elevação do
açúcar e que seu controle rigoroso é peça-chave para evitá-las.
Quem deve tratar de pessoas com diabetes? 

Marcello Bronstein – Diabetes
não pode ser desassociado de outras doenças glandulares, pois, além da
obesidade, outros distúrbios metabólicos (excesso de cortisona ou do hormônio
do crescimento no organismo ou, ainda, maior produção de adrenalina pelas
suprarrenais) podem estar também associados ao diabetes. Por isso, é desejável
que o médico que vai cuidar desses pacientes tenha uma noção geral de
endocrinologia e faça parte de uma equipe multidisciplinar. A presença de uma
nutricionista é fundamental para orientar a dieta, pré-requisito básico do
tratamento, assim como psicólogos e psiquiatras podem ajudar muito, porque está
comprovado que o comprometimento emocional é fator agravante da doença.

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Fonte: Drauziovarella

By | 2017-11-10T12:03:11+00:00 dezembro 10th, 2015|Categories: Colunista_Viviane_Lander, Doenças, Sem categoria, video|0 Comentários

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