Karl Popper e o Darwinismo

Na última década, ganhou importância o debate sobre o ensino da teoria da evolução nas escolas públicas dos Estados Unidos e de outros países, inclusive o Brasil. Concepções grosseiramente simplificadas dos conteúdos de várias ciências têm contribuído para o apoio popular à posição criacionista, mas, infelizmente, posições que fazem parte do debate acadêmico especializado de temas da filosofia da ciência são instrumentalizadas no combate ao ensino da teoria da evolução. Proponentes do que às vezes se denomina “criacionismo científico” procuram promover o conceito de criação divina ao estatuto de ciência enquanto buscam caracterizar a teoria da evolução como crença ou ideologia, apropriando-se de críticas filosóficas de pensadores importantes, como Karl Popper. Pensando nisso, faz-se necessário popularizar (e ensinar) como falsear uma questão do ponto de vista científico.

Mas, o que é Evolução?
Evolução é a modificação da constituição genética de uma população, ao longo do tempo.

Não me considero especialista nem em ciência nem emfilosofia. Tenho, contudo, tentado com afinco, durante toda aminha vida, compreender alguma coisa acerca do mundo emque vivemos. O conhecimento científico e a racionalidadehumana que o produz são, em meu entender, sempre falíveisou sujeitos a erro. Mas são também, creio, o orgulho dahumanidade. Pois o homem é, tanto quanto sei, a única coisano universo que tenta entendê-lo. Espero que continuemos afazê-lo e que estejamos também cientes das severaslimitações de todas as nossas intervenções.Karl Raimund Popper(O mito do contexto) 

Reconhecido como um dos maiores filósofos da ciência do século passado, Karl Popper ofereceu um complemento ao método científico de Sir Isaac Newton. Mostrou a importância da FALSEABIDADE ou da FALSIFICAÇÃO EMPÍRICA.

Em poucas linhas, falsear significa pôr à prova ou pôr em teste! Seus critérios de cientificidade envolvendo conceitos como refutabilidade e poder preditivo de teorias são fundamentais para produzir uma separação razoavelmente clara entre o que é e o que não é ciência.

A atenção que Popper dedicou ao darwinismo não foi pouca, começando por The poverty of historicism (Popper, 1957) passando por várias conferências como, por exemplo, Evolution and the tree of knowledge e atingindo algum detalhamento no livro Objective knowledge: an evolutionary approach (Popper, 1972) e sobretudo em Darwinism as a metaphysical research programme, parte de sua Autobiografia intelectual (Popper, 1974). É principalmente nesta última publicação que está baseada a presente análise.

É importante ressaltar, como ele mesmo o fez, que Popper elabora suas proposições teóricas sobre a evolução tendo como ponto de partida a biologia da segunda metade do século XX, referindo-se pelo termo darwinismo (para maior brevidade) ao que se denomina mais precisamente “teoria sintética da evolução”, “nova síntese” ou ainda “neodarwinismo”. As contribuições teóricas que Popper oferece à teoria estão descritas de forma sucinta, mas muito clara, nas seis últimas páginas (p. 138-43) de Darwinism as a metaphysical research programme podendo ser enumeradas e resumidas como segue:

1. A distinção entre pressão seletiva interna (originada no próprio organismo, principalmente em suas “preferências e objetivos”) e externa (originada pela totalidade do habitat).

2. A suposição de diferentes tipos de genes, alguns responsáveis por traços anatômicos e outros por traços comportamentais, estes últimos subdivididos em genes das “preferências”2 e das habilidades.

3. O esquema de seleção natural, no qual os traços comportamentais dos animais e a variabilidade desses traços são estabelecidos por seleção em várias etapas distintas. Em um primeiro momento, diante de mudanças ambientais, um organismo muda apenas seu comportamento, sem que haja mudança em seu genótipo. O novo comportamento poria o organismo em um novo nicho ecológico, fazendo com que o novo comportamento fosse fixado geneticamente, por seleção natural, uma vez que haveria desvantagens na regressão ao comportamento previamente prevalente. Em uma etapa posterior, esses eventos se configurariam em uma pressão seletiva interna que agiria sobre os genes das habilidades, que ulteriormente pressionariam pela seleção de mudanças anatômicas. O esquema contempla ainda a existência de retroalimentação de cada etapa pelas posteriores, de modo que as mudanças anatômicas reforçariam a seleção de habilidades adequadas às estruturas modificadas e estas habilidades adquiridas reforçariam os comportamentos que delas fizessem uso.

4. A sugestão de que os itens anteriores oferecem uma solução para o problema da evolução em direção às formas de vida “superiores”, ou seja, para uma das versões do problema da ortogênese, solução que, segundo Popper, o darwinismo teria falhado em oferecer. No esquema do item anterior, a seleção por etapas, (preferências → habilidades → anatomia), seria responsável pela aparição de formas de vida superiores, enquanto que o predomínio das retroalimentações dessas mesmas etapas levaria à estagnação, ou seja, a fixação genética de um comportamento reduziria a flexibilidade comportamental da espécie e comprometeria a continuidade a longo prazo desse mecanismo evolutivo.

5. A sugestão de que os itens i a iii oferecem uma solução ao problema da especiação, sem que o isolamento geográfico seja um elemento obrigatório do processo. Esta questão ocupou os criadores da teoria sintética, pois a necessidade de isolamento geográfico de populações como requisito para a especiação resultava em uma deficiência teórica do darwinismo original. Em muitas situações, a proposição de isolamento geográfico acidental como fator do surgimento de uma nova espécie se assemelhava à interposição de uma hipótese ad hoc. A idéia de que um comportamento possa estar geneticamente determinado é essencial para a aceitação de que barreiras não geográficas possam isolar reprodutivamente uma subpopulação e desencadear a formação de uma nova espécie.

6. A descrição da seleção natural como seleção de características pelo seu “valor para a sobrevivência” é inapropriada e está relacionada com a teleologia. Popper propõe que os fatores adaptativos concretos envolvidos não são em si mesmos questões de sobrevivência, mas aspectos mais bem entendidos como de “solução de problemas”.

Os itens 1 a 4 descrevem as sugestões de Popper quanto ao processo evolutivo chamado de ortogenético, ou seja, aquele processo que apresenta uma tendência ou direção aparente ao longo de uma série de transformações em uma linha filogenética. O item v conecta esse problema ao da especiação. Quanto ao item vi, trata-se de uma interpretação da seleção natural altamente relevante para a discussão do estatuto do darwinismo, relevância que foi todavia ignorada no texto de Popper, o que não deve causar surpresa, considerando o teor da discussão do estatuto científico da teoria da evolução feita por ele.

Em entrevista a John Horgan em 1992, Karl Popper declarou sobre sua qualificação do darwinismo como sendo metafísico e tautológico que: “Isso talvez tenha sido exagerado”. E ainda: “Não sou dogmático a respeito de minhas próprias opiniões”.

É sem dúvida uma retratação tímida, mas merece ser lida por muitos admiradores de Popper que partilharam de suas reservas ao neodarwinismo. São muitos os significados que podemos atribuir ao termo exagerado na frase de Popper, além dos outros excessos por ele cometidos em sua discussão da evolução. Para manter o foco no essencial, espero que a presente crítica tenha estabelecido algumas diferenças entre o neodarwinismo e o neodarwinismo sob os olhos de Karl Popper.

Enquanto para Popper “dizer que uma espécie atualmente viva está adaptada ao seu ambiente é, de fato, quase tautológico” (1974, p. 137), a teoria da evolução, de sua parte, afirma que uma espécie atualmente viva está quase adaptada, o que não é nada tautológico.

A incorporação das críticas popperianas ao discurso criacionista pode e deve ser rejeitada no debate atual sobre o ensino da teoria da evolução sem que a maioria dos elementos desta nota crítica seja considerada. O discurso criacionista procura apropriar-se da autoridade intelectual de Karl Popper com o intuito de desacreditar a teoria da evolução enquanto teoria científica. Essa posição ignora a complexidade da discussão feita por Popper, a qual procuramos expor criticamente nesta nota. Em nenhum momento de sua discussão, Popper exclui a teoria da evolução do campo da ciência. Embora considerando sua crítica inválida em muitos pontos, mesmo que a assumíssemos in totum, o darwinismo subsistiria como um programa de pesquisa inestimável, segundo o próprio Popper.

Além do fato de que as críticas popperianas podem ser questionadas e de que, mesmo que não o fossem, o darwinismo subsistiria, há outro motivo pelo qual a incorporação criacionista da crítica popperiana é insustentável. A crítica do autor à teoria não questiona os dados advindos da paleontologia de que houve uma vasta transformação dos seres vivos ao longo da história da Terra. Popper questiona o quanto o darwinismo é capaz de explicar esse fenômeno, mas não questiona a existência do fenômeno e nem admite a explicação teísta da adaptação, pois a considerava pior que qualquer admissão de fracasso, uma vez que o teísmo criaria a falsa impressão de que uma explicação foi alcançada.

By | 2017-11-10T12:02:37+00:00 maio 10th, 2016|Categories: Sem categoria|0 Comentários

Sobre o Autor:

Deixar Um Comentário

This Is A Custom Widget

This Sliding Bar can be switched on or off in theme options, and can take any widget you throw at it or even fill it with your custom HTML Code. Its perfect for grabbing the attention of your viewers. Choose between 1, 2, 3 or 4 columns, set the background color, widget divider color, activate transparency, a top border or fully disable it on desktop and mobile.

This Is A Custom Widget

This Sliding Bar can be switched on or off in theme options, and can take any widget you throw at it or even fill it with your custom HTML Code. Its perfect for grabbing the attention of your viewers. Choose between 1, 2, 3 or 4 columns, set the background color, widget divider color, activate transparency, a top border or fully disable it on desktop and mobile.